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A estimulante viagem através do Sistema de Recompensa



No âmbito da Psicologia, compreender as emoções humanas e a forma como as regulamos pode ser uma descoberta fascinante mas também complexa e misteriosa. Neste sentido, Paul Gilbert desenvolveu a teoria dos Três Sistemas de Regulação Emocional para explorar e explicar a forma como as nossas emoções são geridas e expressadas.

Neste artigo, vamos explorar o Sistema de Recompensa (Drive System), responsável pela nossa capacidade de exploração, e procura de prazer, recompensa e motivação. Para além disso, vamos também conhecer os potenciais perigos da ativação excessiva deste sistema na procura pelo prazer imediato como estratégia primária (e, por vezes, única) para regular as emoções.


O Sistema de Recompensa: O que é?

Segundo Paul Gilbert, existem três sistemas de regulação emocional: o Sistema de Ameaça/Defesa, o Sistema de Tranquilização e o Sistema de Recompensa. O Sistema de Recompensa é aquele que nos impulsiona em direção aos nossos objetivos e desejos - um sistema motivacional - com o propósito de prosperar e/ou sobreviver. Quando este sistema é ativado, podemos experienciar sentimentos de excitação, diversão, motivação e prazer, ativando emoções positivas ligadas à procura e aquisição de recursos.


Dopamina: O alimento essencial para o sistema de recompensa

A dopamina, frequentemente referida como o neurotransmissor da “felicidade”, desempenha um papel importante na ativação do Sistema de Recompensa. Este mensageiro químico é responsável pela experiência de sentimentos de prazer sempre que alcançamos um objetivo. Quando nos envolvemos em atividades alinhadas com os nossos objetivos e desejos, como atingir um marco no mundo profissional ou desfrutar de uma refeição deliciosa, o sistema de dopamina no nosso cérebro é ativado. Esta libertação de dopamina reforça o comportamento e a sensação de bem-estar, motivando-nos a continuar a procurar experiências prazerosas e recursos valiosos.


Como se manifesta a ativação deste sistema nas nossas vidas diárias?

  1. Trabalho e ambição: Conhece aquela sensação de energia e excitação que sente quando está prestes a iniciar um novo projeto no trabalho, lançar um novo negócio ou enfrentar uma tarefa desafiadora?

  2. Comer e prazer: O nosso Sistema de Recompensa também desempenha um papel significativo nos nossos hábitos alimentares. Está familiarizado com a sensação de desejar uma fatia de bolo de chocolate ou uma refeição bem preparada? Estas são representações de como o Sistema de Recompensa reforça o prazer associado a estas atividades.

Quer na procura de alimentos, abrigo, conforto e território, à corrida por uma posição social, sucesso e estatuto, quer na competição, antecipação, envolvimento em atividades prazerosas altamente valorizadas, consumo de alimentos calóricos ou outras formas de estimulação (e.g., jogos, “scrolling” nas redes sociais, pornografia, drogas, etc.), o Sistema de Recompensa está associado à antecipação de resultados positivos, conquistas - "tenho que fazer as coisas"; "tenho que fazer mais"; "tenho que ter mais".

Quando algo verdadeiramente grandioso e excessivamente excitante acontece, a ativação deste sistema de emoções positivas também pode ser excessiva. Por exemplo, se ganhasse o prémio da lotaria amanhã, provavelmente lidar com a resposta dopaminérgica no corpo seria um desafio, e sentiria dificuldades em dormir durante alguns dias, podendo experienciar pensamentos intrusivos e flashes de excitação sobre o facto de se ser muito, muito rico de um segundo para o outro.


Perigos do hiperativação do Sistema de Recompensa

Quando em equilíbrio com os outros dois sistemas, o Sistema de Recompensa fornece-nos a importante capacidade de exploração que nos mantém motivados para alcançar objetivos e satisfazer necessidades importantes. No entanto, na presença de um desequilíbrio e na extrema ativação do Sistema de Recompensa, podemos experienciar desregulação emocional e sofrimento psicológico, nomeadamente:

  1. Burnout: A hiperativação do Sistema de Recompensa é frequentemente associada à necessidade de compensação dos sentimentos de inadequação ou da visão negativa do self, o que se manifesta na corrida persistente, irrealista e rígida de perfeição.

  2. Impulsividade: A ativação excessiva do Sistema de Recompensa poderá fazer-se sentir na tomada de decisões impulsivas e com um foco apenas nas consequências a curto prazo. Nestas situações tendemos a dar prioridade ao prazer imediato em detrimento de objetivos futuros e bem-estar a longo prazo.

  3. Adição: O Sistema de Recompensa, com o seu reforço dopaminérgico do prazer, pode tornar os curtos momentos de prazer altamente recompensadores, aumentando o risco de dependência. Quer se trate do consumo excessivo de substâncias, ingestão alimentar compulsiva, compras compulsivas ou jogo excessivo, estes comportamentos podem tornar-se problemáticos quando impulsionados exclusivamente pela procura do prazer imediato.

  4. Negligência dos outros sistemas: Quando o Sistema de Recompensa se torna o único recurso para a experiência de emoções positivas, os outros sistemas de regulação emocional podem não ser considerados como opções, ainda que sejam fundamentais para o equilíbrio emocional. Descurar estes sistemas pode resultar numa maior dificuldade em lidar com stress e na regulação eficaz das emoções.

Equilíbrio emocional

As emoções associadas a sentimentos de energia, exploração e obtenção de recursos são geralmente experienciadas como positivas e excitantes, permitindo-nos prosseguir com a nossa luta pela sobrevivência e bem-estar. No entanto, como mencionado anteriormente, a hiperativação do Sistema de Recompensa pode ter consequências negativas ou pouco úteis. Quando mantemos um foco extremo na procura competitiva por recursos, pode surgir o desejo ilimitado pelo prazer imediato - pelas sensações de "entusiasmo", “prazer” ou "bem-estar", através da premissa "fazer e conquistar". Este ciclo interminável de "ter que ter, ter que fazer, ter que ser" pode desafiar e ultrapassar os nossos limites, provocando uma sensação de exaustão e um estado de burnout. Por mais que se corra atrás da perfeição e do prazer imediato, nunca será suficiente, levando à desregulação emocional e, por consequência, aumentando o risco do desenvolvimento de problemas de saúde mental.

Para encontrar a harmonia e o bem-estar, é necessário alcançar um equilíbrio entre os três sistemas de regulação emocional. Em particular, a ativação do Sistema de Tranquilização funciona como regulador do Sistema de Ameaça/Defesa e do Sistema de Recompensa, permitindo a experiência de estados de calma, conexão e segurança. Quando lidar com experiências emocionais, como ansiedade, tristeza ou raiva, se torna um desafio, o cuidado, a compaixão e o suporte de pessoas que gostamos ou amamos, facilitam o desenvolvimento de estratégias mais úteis e adaptativas. Quanto mais compreendermos estes processos da mente, maior será nossa capacidade para explorar mecanismos que permitam um funcionamento ótimo e saudável, aproveitando o potencial que nossos cérebros evoluídos têm a oferecer, sem colocar em risco nossa saúde mental.

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