A pandemia está a ir embora… E a saúde mental das crianças e dos adolescentes está a voltar?




Ao longo dos últimos 18 meses, a população mundial experienciou uma pandemia com impacto significativo na sua saúde mental e bem-estar. As medidas de combate à pandemia, nomeadamente os múltiplos confinamentos domiciliários e a alteração da rotina diária, levou à experiência de maiores níveis de sofrimento psicológico, stress e sintomatologia psicopatológica na população geral e, em particular, na população mais jovem.


Em Portugal, estima-se que um em cada dois jovens em idade escolar se encontra a experienciar sofrimento psicológico, com consequências a longo prazo, podendo tanto evoluir para uma perturbação mental, como comprometendo outras áreas da saúde futura. Desde o início da pandemia, deram entrada nos hospitais públicos cada vez mais crianças, com problemas de psicossomatização, perturbações do comportamento e dificuldades escolares, e adolescentes, com um aumento significativo de casos de tentativas de suicídio, comportamentos autolesivos e perturbações de sono.


A dificuldade em lidar com o stress e com as variáveis associadas à pandemia levaram, assim, a um aumento da procura de acompanhamento psicológico e psiquiátrico nos hospitais portugueses, nomeadamente nos serviços de Pedopsiquiatria. A realidade internacional vai no mesmo sentido, sendo que, de acordo com alguns estudos, o número de quadros depressivos e ansiosos na população mais jovem duplicou desde o início da pandemia. Mas, por que razão a saúde mental das crianças e adolescentes foi tão afetada? Estará o sistema de saúde (em especial, o sistema de saúde português), atualmente, preparado para dar resposta ao aumento deste número de casos?


Sofrimento psicológico associado à pandemia

As medidas preventivas associadas à pandemia, tais como o encerramento dos estabelecimentos de ensino e de tempos-livres, o ensino à distância e o isolamento social, tiveram um particular impacto negativo na vida das crianças e dos adolescentes. As crianças, devido aos diversos períodos de confinamento domiciliário, viveram num ambiente familiar restrito, com interações sociais limitadas, e com pais muitas vezes, divididos entre a gestão das atividades laborais e a prestação de cuidados. Especificamente, as crianças em idade escolar, com a adoção do ensino à distância, experienciaram uma ausência de interação direta com os professores e o restante ambiente escolar, o que poderá ter tido um impacto negativo na aquisição de competências de aprendizagem e competências sociais. De um modo geral, a pandemia limitou as vivências das crianças durante um período de desenvolvimento, habitualmente pautado pela procura ativa de experiências, comunicação e relação, imprescindíveis à maturação sociocognitiva e emocional do ser humano. Os adolescentes foram também sujeitos a inúmeras alterações e adaptações na sua rotina: a limitação de interações sociais teve um impacto negativo na sua saúde mental; o aumento do tempo despendido em frente aos ecrãs fez diminuir o tempo em família e de convívio offline (não ignorando os desenvolvimentos e respostas tecnológicas que também se revelaram essenciais, quando utilizados devidamente); a ausência de atividades físicas, mesmo que, em parte, substituídas pelas modalidades online, teve também um impacto significativo na vida e saúde (física e mental) dos adolescentes; os projetos foram adiados, os planos, objetivos e metas definidas foram reajustadas, e muitas experiências adiadas (e.g., festas, encontros, viagens, concertos), interferindo com a forma como os adolescentes cresceram, se sentem e projetam o futuro.


Transversal a todas as faixas etárias, está a possível perda de familiares próximos e/ou a própria infeção por COVID-19, mais ou menos sintomática; foi ainda verificado um decréscimo dos níveis de atividade física e uma desregulação dos padrões de sono durante o confinamento, muitas vezes associados a um maior tempo de exposição a ecrãs, alimentação menos variada e com produtos menos frescos, contribuindo para problemas de saúde futuros (e.g., obesidade infantil e adulta).


O caminho a seguir passa pelo incentivo em pedir acompanhamento psicológico e psiquiátrico; combater o estigma associado à saúde mental. Além disso, é necessário que o país permita que se deem respostas eficazes no âmbito da saúde mental, sendo necessário investir em serviços públicos e privados de qualidade, com a integração de intervenções baseadas na evidência nos setores de saúde, educação e proteção social, especialmente focados na população mais jovem.

Na Mental Health Clinic Isabel Henriques dispomos de uma equipa multidisciplinar que o poderá ajudar a dar resposta às suas necessidades. A sessões de psicoterapia estão disponíveis para crianças e adolescentes, assim como para pais e mães que apresentem dificuldades em lidar com os seus filhos ou com o seu papel parental.


As nossas crianças e adolescentes serão os adultos do futuro. Cuidemos deles.

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