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Dualidade – Conflitos Internos

Atualizado: 16 de jun. de 2021

Os conflitos internos fazem parte da nossa vida. São usualmente descritos como a luta entre a razão e a emoção.


Provavelmente você já viveu este tipo de experiência, querer uma coisa e fazer outra, ou ao invés, não querer algo e fazê-lo. Que força é esta que em momentos críticos das nossas vidas se sobrepõem à nossa vontade? Julgo que esta força tem tanto de positivo como de negativo, dependendo sempre da forma como interpretamos esta dualidade que nos confunde e origina um turbilhão de emoções e pensamentos incomodativos. Emoções e  razão, quando se antagonizam geram-nos confusão. Neste estado lábil, ficamos inseguros nas decisões a tomar, podendo conduzir-nos a pensamentos e sentimentos instáveis, que se viram contras nós mesmos.



GATILHOS PARA OS CONFLITOS INTERNOS


Por vezes, os gatilhos que nos geram conflitos internos são oriundos dos nossos desejos, das nossas ambições, dos nossos sonhos e objetivos. Criamos uma imagem ideal acerca das coisas que julgamos fazerem sentir-nos bem, podem sofrer influências dos nossos amigos, da sociedade, duma frustração antiga, de um trauma, seja o que for é suficiente para gerar um conflito. Mas qual a verdadeira raiz destes conflitos? Ela emerge, nas grande maioria das vezes devido à incompatibilidade entre aquilo que pensamos, e a forma como agimos. Por exemplo: “Eu pretendo perder peso, mas gosto muito de comer, e detesto fazer sacrifícios.” Este é um exemplo clássico como se formam os conflitos internos. Ainda que possam existir muitos tipos de conflitos, uns mais incómodos e devastadores que outros, têm sempre relação com duas forças internas, não necessariamente opostas, mas sim incompatíveis.


Podemos ainda criar conflitos internos de ordem moral e de ordem pessoal valorativa. Quando por exemplo, fracassamos, quando nos paralisamos pelo medo, quando não investimos em nós. Quando nos sentimos magoados por nós mesmos, quando nos voltamos contra nós mesmos, certamente experienciamos o pior dos conflitos. Experienciamos o conflito interno mais cortante e incompatível com a nossa natureza humana, que é depreciarmo-nos de forma auto-punitiva. Sabemos que deveríamos fazer algo para melhorar a nossa vida, mas as ações para lá chegarmos amedrontam-nos, fazem disparar a nossa ansiedade, retiram-nos da nossa zona de conforto. E, quando pensamos no processo que nos levaria ao resultado desejado, deparamo-nos com a dura realidade que só iremos ser bem sucedidos se nos propusermos a enfrentar alguns incómodos. Em que ficamos? Como resolver este tipo de conflito entre aproximarmo-nos de algo que desejamos muito, e afastarmo-nos das ações que nos incomodam, que nos são difíceis? Como resolver esta zona de ninguém? Com sair do limbo?

LINHA TÉNUE ENTRE O BENEFÍCIO E MALEFÍCIO DAS ESTRATÉGIAS DE RESOLUÇÃO


Uma estratégia que pode efetivar-se como eficaz  face ao sentimento de decepção de não avançarmos nos nossos desejos e/ou ultrapassar outros sentimentos desconfortáveis, é tentar identificar o que fizemos de errado ou o que tememos que nos conduziu à situação presente. A ideia é, “Se eu causei isso, eu posso corrigi-lo“, o que promove uma sensação de poder, em vez de impotência. Evidentemente faz todo o sentido procurar qualquer ponto de apoio que nos permite elevar acima da nossa dificuldade, mas o problema que por vezes emerge com esta estratégia é que leva-nos a que recorrentemente inspecionemos o terreno das nossas deficiências. Este processo pode criar uma mentalidade de “culpar a vítima” ou conduzir-nos a duras autocríticas, que prejudicam ainda mais a situação dolorosa.


Podemos-nos sentir como se tivéssemos um melhor controle sobre o problema, mas também pode conduzir-nos à vergonha de ter o problema. Evidentemente, que olhar para as nossas dificuldades e fraquezas e assumir a responsabilidade é um processo que deve merecer a nossa atenção.


No entanto, este processo de recolha de informação e de avaliação de nós mesmos, será proveitoso e assertivo se tivermos uma atitude positiva nessa análise.


Tal como já referi, não estou sugerindo que nunca devemos perder tempo a investigar como poderemos fazer melhor no futuro, pelo contrário. É quando este processo de avaliação, quando este processo de alimentação do conflito interno se torna o principal mecanismo de enfrentamento, que ele faz mais mal do que bem. É quando o nosso diálogo interno auto-crítico e censuras desmedidas substituem o processo de reconhecer os nossos sentimentos feridos que caminhamos para um caminho destrutivo e auto sabotador, prejudicando-nos. Aí sim, esse caminho não é benéfico.


Outra maneira pouco conveniente de lidar com os conflitos internos é tentar disputar o controle sobre os sentimentos desconfortáveis, tentando o alívio com afirmações como: “Isto também não tem grande problema”, ou “Eu estou a ser ridículo, isto também não me resolve nada.” Por mais que tentemos convencer-nos que não deveríamos ter uma determinada resposta, isso não remove a experiência emocional subjacente, quase sempre dolorosa. O que essa abordagem faz, é criar uma grande diferença (conflito interno) entre o que você está dizendo a si mesmo e o que você está realmente sentindo. A dissonância entre os dois cria tanta tensão que muitas vezes acabamos agindo de maneiras auto destrutivas. Neste processo de raciocínio, julgamos que estamos a diminuir a nossa mágoa ou a diminuir a ansiedade, mas na verdade estamos a criar mais uma disfuncionalidade.


É importante não evitarmos os sentimento que nos causam mal estar e incómodo, não devemos tentar bani-los com estratégias de “fazer de conta que não existem” ou ignorar o desconforto que nos causam. Se sentimos que nos incomodam, se nos limitam os nossos comportamentos e nos afetam a nossa felicidade, precisam inevitavelmente da nossa atenção, da nossa capacidade de o interpretar e de percebermos o que essas sensações nos estão dizendo acerca da forma como estamos levando a vida. Relacionando tudo o que descrevi atrás com a sobriedade emocional, acredito que o objetivo benéfico é propor-nos a sentirmos todos os nossos sentimentos, para não ficarmos reféns deles ou evitá-los.


A reter: A sobriedade emocional gira em torno da busca de equilíbrio emocional e do desenvolvimento de força emocional para que possamos ficar em contato consciente com as nossas experiências atuais, e honrar e fazer escolhas saudáveis. É sobre ter compaixão por essa condição humana imperfeita, aceitando que a vida é um processo interminável que exige aceitar, cuidar e superar as dores ocasionais de crescimento.