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Quando o Natal chora a ausência de ente querido


O Natal é tido como o período de tempo mais maravilhoso do ano. Cheio de alegria, momentos de confraternização, conforto e gratidão. Os lugares, as paisagens, os cheiros e os sabores apelam a boas memórias. Contudo, boas memórias trazem emoções positivas apenas quando conseguimos encontrar alguma coerência entre como era a vida nesse tempo e como é a vida agora. Quando nos falta a pessoa a quem associamos o “boa” à “memória”, nessa mesma memória, quase que somos levados a assumi-la como uma má memória ou, pelo menos, como uma memória indesejável e a evitar. E por isso, por vezes, acabamos a sentir-nos culpados e ingratos. Tudo isto faz parte do processo de luto, agudizado pelo contraste com um período de tempo tido como, supostamente, o mais maravilhoso do ano.


Pode não sentir-se motivado pelo Natal. Pode não encontrar prazer naquilo que antes o deixava a sentir-se bem. Pode sentir-se assoberbado pelas pessoas, tradições, rituais e tarefas exigidas pelo período natalício. A cadeira está vazia. Já não existe aquele lugar à mesa. O luto é especialmente duro no Natal. Aceitar que o seu sofrimento e esta dificuldade são reais é o primeiro passo a tomar para conseguir navegar neste primeiro Natal sem o seu ente querido. Tentar evitar ou racionalizar esta realidade só contribuirá mais para a dureza deste momento.


Reconhecendo a sua nova realidade como primeiro passo, de seguida, confrontar-se-á com algumas decisões: tradições a manter, tradições a criar, rituais em que participará e confraternizações nas quais não estará presente. Haverá momentos em que não se sentirá capaz de celebrar o que quer que seja, em que isso não lhe fará sentido. Mas não se esqueça: provavelmente, o seu Natal não foi o único que mudou e que é, agora, triste, pela perda deste alguém.


Honre este alguém apreciando algo que este também apreciava. Pode ser um livro, uma canção, uma tradição ou uma receita.


Mantenha algumas tradições, mas não tente que o Natal seja como era outrora. Porque não vai ser. Não se pressione: se desejar manter uma tradição, mas for demasiado difícil para si fazê-lo, ou for demasiado confuso não poder associar a imagem desta pessoa a esta tradição, ou se sentir que é muito trabalhoso, não a mantenha.


Não suprima as suas emoções. É natural que chore. É natural querer isolar-se. É natural parecer distante. Em vez de reprimir, converse acerca disto, verbalize-o e explique-o aos mais pequenos. Transforme essa conversa num momento de recordação de boas memórias acerca desta pessoa. Partilhe e eternize as suas boas memórias.


Crie novas tradições, sobretudo com os mais novos. Não faça as coisas pelo seu manual antigo. Criando novas tradições estará a criar, também, novas memórias, boas memórias para quem o rodeia. Faça uma receita que não seja natalícia. Celebre o Natal num sítio diferente. Mude a agenda dos dias de celebração. Convide alguém novo.


Equilibre os seus tempos sozinho e os seus tempos de confraternização. Poderá ser importante para si estar sozinho, para refletir, até escrever acerca do que pensa e sente. Poderá sentir a necessidade de ir a um local onde se sinta conectado com esta pessoa que perdeu. Ou poderá usar este tempo, a sós, para se sentir bem, relaxar, ouvir uma boa música, beber algo reconfortante, ver um filme. Mas não fique sozinho se achar que cairá em profundas melancolia e tristeza. Junto de outros, dirija-lhes a atenção e o afeto que gostaria de receber. Abra-se ao amor dos outros. Seja honesto e transparente em relação às suas necessidades. Atenda às necessidades dos outros, também.


A perda de alguém especial é dura. O luto é um processo muito difícil. Contudo, neste processo, nem tudo tem de ser extremamente duro e difícil. O primeiro passo é aceitar que o seu sofrimento e esta dificuldade são reais. Passando para os passos seguintes, neste Natal, estará a recriar o bom de um bom Natal.

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