Um homem entre mulheres

Atualizado: 2 de mar.


Nos encontramos no ano de 2022.


Angela Merkel, Joana D’arc, Margareth Thatcher, Dilma Rouseff, a minha mãe e a sua mãe. O que estas mulheres têm em comum? Foram e são fontes de coragem e resiliência neste nosso mundo, ainda, desigual. Seja uma dona de casa ou a próxima presidente, todas enfrentam condições de assédio e preconceito em algum momento da sua vida.


O sucesso no mundo profissional, infelizmente, ainda é estranho e quase antagónico de ser mulher. Existem inúmeras religiões e culturas que até hoje reprimem o papel da mulher na sociedade. Lugares esses em que as mulheres não podem cumprimentar outros homens, não podem sair de casa sem permissão, e que, comummente têm os seus corpos e mentes cobertos com o manto do preconceito.


Como homem, acredito mantenho um manto de privilégio que me impede de escrever sobre o preconceito no mundo feminino, mas não é possível para mim fechar os olhos ao preconceito que ainda se faz sentir. Preconceito este que se faz acompanhar de um rasto perigoso que oprime, ofende e mata muitas mulheres todos os dias. Tenho nas minhas mãos a escolha de lutar por esta causa, de não tolerar este tipo de comportamento ao meu redor, e de respeitar, independente da situação, a mulher na sua posição, seja ela qual for.


É indiscutível o privilégio que sinto por estar entre mulheres, respeitar e ser respeitado por mulheres, trabalhar e conviver com mulheres destemidas que sabem onde querem chegar, que sabem que podem tudo e que vão alcançar qualquer objetivo traçado. Sem surpresa minha, o quotidiano entre mulheres é leve, saudável e de tolerância, tal como deve ser qualquer momento de convivência humana. Na verdade, acredito que este texto seja o primeiro momento em que o tema do género tenha entrado em pauta durante meu percurso dentro da Mental Health Clinic Isabel Henriques - o que me orgulha muito.


Sou fruto de 3 mulheres: avó, mãe e tia. Três mulheres com visões do mundo completamente diferentes e que fizeram de mim o que sou hoje.


A minha avó foi da primeira turma da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) do curso de Educação Física, um curso maioritariamente masculino. Contra toda a estranheza e barreiras sociais, fundou um ginásio na sua cidade natal, e que encontra em funcionamento até hoje. Mesmo quebrando estas barreiras de género, muitas vezes me confessa que eu sou o reflexo das aventuras que ela quis embarcar e não pôde por ser mulher. Dentro destas aventuras que lhe foram negadas, está, por exemplo, a liberdade de explorar o mundo, viajar, olhar para dentro de si e buscar o que realmente nos faz feliz e poder perseguir isso sem correntes.


A minha mãe, uma guerreira, desde sempre me ensinou que é imperativo persistir e avançar, aconteça o que acontecer, e que a vida é como um comboio em constante andamento em que o nosso papel é aproveitar a viagem. A minha mãe é o exemplo de mulher que se mantém fiel às suas vontades e valores, independentemente do ambiente, que usa saltos altos todos os dias, mesmo que seja para fazer uma visita rápida uma obra, e que nunca permite ser menos respeitada por ser mulher. Basta passar breves momentos com ela para se reconhecer que é uma líder exemplar, respeitada por homens e mulheres de diversas classes sociais - isto para mim é o mais irrefutável exemplo de sabedoria e humildade.


A minha tia ensinou-me o que significa cuidar e ser cuidado. Estar com a minha tia é sinónimo de longas conversas, em que refletimos e procuramos formas de resolver as questões da nossa família. Sempre que como pipocas e miojo, as comidas mais deliciosas e reconfortantes que conheço, sinto a minha tia mais perto pois foi com ela que aprendi a confecionar estes dois pedaços de lar. A minha tia representa isto mesmo, lar e colo, sem nunca deixar de se mostrar resiliente e assertiva quando as coisas saem dos trilhos.


Estes três seres humanos, por acaso mulheres, sempre foram o meu porto de abrigo e fonte de força para os desafios que enfrento pelo mundo e vida fora.


Já vivi em 3 cidades diferentes, viajei bastante, conheci muitas pessoas, tive a oportunidade de viver momentos maravilhosos, e de enfrentar vários obstáculos ao longo da minha caminhada até aqui. Desta minha caminhada, tento ter sempre presente a grande lição do respeito por todos, sem exceções, e por nós mesmos.


Muitas vezes reproduzimos preconceitos sem dar por isso. Acredito que para travar esta distração é preciso estar atento e ter a humildade de, se um dia alguém se sentir magoado com algum comportamento ou palavra, pedir desculpa, e reconhecer a ofensa e não voltar reproduzir. Afinal, o preconceito a maior parte do tempo parece disfarçado como “brincadeira” e a verdade é que só dói a quem sente.


Sou um homem que trabalha entre pessoas extremamente competentes, e por acaso, todas são mulheres. Mais um privilégio, não é verdade?


Em pleno ano 2022, até quando nos vamos considerar melhor que o outro?



Por João Marcelo Abreu

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