Um olhar sobre o amor plural



O interesse no mundo das relações múltiplas faz-se acompanhar, comummente, por sentimentos de vergonha e culpa. Na verdade, o estigma na expressão da sexualidade ainda persiste. Nomeadamente, na maioria das culturas ocidentais assume-se o padrão relacional monogâmico como o paradigma ideal nos relacionamentos de compromisso. A defesa prevalente deste paradigma na nossa sociedade desvaloriza e estigmatiza os tipos de relacionamentos que não se encaixam neste molde, mesmo quando consensuais, e promove crenças partilhadas destes como sendo menos morais, de menor qualidade, menos satisfatórios e com riscos acrescidos para o bem-estar e saúde.


Em primeiro lugar, quando falamos de relações não-monogâmicas consensuais, falamos de relações românticas, sexuais, amorosas e afetivas consensuais, entre duas ou mais pessoas de qualquer género. Todos os elementos concordam explicitamente que cada parceiro mantenha relações românticas e/ou sexuais com outras pessoas. Os acordos específicos deste tipo de relações variam significativamente e, através destas diferenças, podemos distinguir diversas variantes do “guarda-chuva” que é a não-monogamia consensual, nomeadamente:

  • Poliamor: relações cujos elementos podem ter múltiplos parceiros românticos ou sexuais ao mesmo tempo.

  • Ménage à trois ou sexo a três: experiência sexual entre um casal e um terceiro elemento.

  • Swinging: relação sexual entre dois casais, na qual poderão ser “trocados” os parceiros durante o encontro.

  • Cuckolding: experiência sexual que envolve um casal e um terceiro elemento que apenas se relaciona com um dos membros do casal, habitualmente, enquanto o parceiro observa.

  • Relacionamentos hierárquicos: relação caracterizada por uma hierarquia de parceiros (habitualmente um casal), em que existe a distinção entre os parceiros primários e os parceiros secundários.

  • Polifidelidade: relação entre um grupo de pessoas, e cujos membros são parceiros hierarquicamente iguais. Ninguém tem relações sexuais/românticas com pessoas fora do grupo.

  • Anarquia relacional: abordagem das relações, geralmente não hierárquica, na qual não existem regras ou expectativas definidas, para além daquelas que os parceiros envolvidos acordam.

  • Relações abertas: relações nas quais o casal ou conjunto de parceiros “centrais” estão ativamente abertos a novos parceiros românticos ou sexuais.

  • Monogamish: Relação na qual um casal que é maioritariamente monogâmico, mas, ocasionalmente, pode ter relações sexuais com outras pessoas em determinadas situações.

  • Relacionamentos casuais: experiências nas quais as pessoas têm encontros românticos/sexuais com várias pessoas, sendo que todos os envolvidos têm conhecimento desta abordagem e dão o seu consentimento.

De facto, este tipo de relações, tal como qualquer outro tipo, pode permitir a exploração de novas experiências a nível individual e trazer novos níveis de confiança e intimidade a uma relação, contudo, viver de acordo com um modelo plural de amor/sexualidade tem inúmeros desafios.


É essencial ter em consideração dois aspetos: 1) a presença de um sentimento de vinculação segura. Num contexto de não-monogamia, a ausência deste sentimento pode ativar muitas inseguranças e, consequentemente, poderá levar a que os elementos da relação se isolem e evitem expressar o que sentem, ou que experienciem níveis elevados de ansiedade; 2) compreender o motivo pelo qual um sistema relacional não-monogâmico se poderá adequar. A escolha da não-monogamia não é uma solução para a falta de desejo ou intimidade, ou para qualquer outra dificuldade na relação - não é uma compensação, mas sim uma adição, um complemento. Neste sentido, os elementos da relação devem estar alinhados no que concerne ao seu desejo de explorar e experienciar a novidade, e os desafios que um modelo plural de amor/sexualidade poderá incluir.


São vários os casais que, cada vez mais, se identificam com a não-monogamia consensual e manifestam interesse em explorar este modelo plural de amor/sexualidade, mesmo dentro do seu relacionamento tradicionalmente monogâmico. Contudo, comunicar este interesse ao outro elemento do casal, pode ser um desafio, devido ao estigma existente e à mononormatividade (i.e., valorização social da monogamia sobre a não-monogamia). Apesar de não existir uma fórmula correta para a comunicação de sexualidade com o outro, poderão ser tidos em consideração alguns pontos-chave, que aumentarão a probabilidade destas experiências serem positivas e gratificantes para os membros da relação:

  1. Tenha expectativas realistas. É importante gerir as suas expectativas sobre a reação do seu parceiro ao debate do tema da não-monogamia. Reconheça e valide o natural aparecimento de inseguranças, confusão ou incerteza. A reação do seu parceiro poderá ativar algumas emoções intensas em si. Neste sentido, é essencial que esteja atento, lide de forma positiva com a sua experiência interna e expresse o que está a sentir;

  2. Escolha o momento e o lugar certos. Deve questionar-se sobre a estabilidade e conexão existente na relação, e se estão preparados, enquanto casal, e enquanto pessoa individual, para debater um tópico com elevado peso emocional;

  3. Defina as suas intenções. Inicie a conversa com o seu parceiro dizendo-lhe como e o que sabe sobre as relações não-monogâmicas consensuais; assegure-se de que o seu parceiro não precisa de concordar ou discordar imediatamente com o que está a propor ou sugerir; seja honesto e claro sobre o que pretende retirar deste tipo de modelo e como poderia aplicá-lo na relação. Ao longo de todo o processo, reforce a importância da relação e da evolução desta.

  4. Ouça ativamente. Uma atitude compassiva e de não julgamento para com o seu parceiro é essencial para criar um espaço seguro e saudável de comunicação. É importante que seja capaz de ouvir e compreender ativamente os pensamentos e sentimentos do seu parceiro.

  5. Separe as necessidades da relação das necessidades individuais. Ambos precisam de compreender as necessidades e perspetivas individuais um do outro e, posteriormente, explorar a decisão mais útil para a relação. O que funciona para a relação pode ser diferente do que funcionaria para cada elemento do casal, individualmente.

  6. Dê tempo e recursos ao seu parceiro. Reforce a sua aceitação acerca do facto do seu parceiro precisar de tempo e espaço para compreender os seus pensamentos e sentimentos. Partilhe recursos com a intenção genuína de querer dar-lhe suporte e sem a expectativa de que isso resulte na sua concordância em explorar uma relação não-monogâmica.

  7. Procure apoio. Não têm de explorar este modelo de relação sozinhos. Ambos precisam de suporte. O acompanhamento psicológico está disponível e poderá ajudar nestas situações.


Por fim, recorde-se de que não há qualquer problema se a não-monogamia não for do seu interesse e/ou do seu parceiro, neste momento ou nunca, tal como a monogamia não é do interesse de todos.

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