Uma batalha entre a intimidade e o desejo



Contrariamente à narrativa cultural, existe uma complexa relação entre o amor e o desejo, e não se trata de uma relação linear de causa-efeito. Existe sim, um interessante paradoxo entre estes dois aspetos fundamentais: à medida que uma relação amorosa cresce emocionalmente e a intimidade entre as pessoas envolvidas aumenta, incluindo os sentimentos de segurança, confiança, conforto e pertença, o desejo tende a diminuir.


É bastante comum assumir que as dificuldades sexuais são o resultado de uma falta de proximidade e conexão entre os elementos do casal. Contudo, a forma como construímos a proximidade pode reduzir a sensação de liberdade e autonomia necessária para o desejo sexual. Quando a intimidade de um relacionamento se transforma em fusão e emaranhamento, não é a ausência de proximidade que impede o desejo, mas sim o seu excesso.


Desejo e amor são dois ingredientes imperativos na receita de uma relação amorosa saudável e prolongada. A nossa necessidade de união e conexão existe mutuamente com a nossa necessidade de autonomia e liberdade. Uma não existe sem a outra. Com demasiada distância, não é possível existir conexão e intimidade. Da mesma forma que, com demasiada fusão a autonomia de dois indivíduos distintos é eliminada, e consequentemente o desejo um pelo outro diminui. Este é o paradoxo essencial da intimidade e do desejo/sexo.


No início de uma relação passamos por uma fase de emoções intensas e desejamos por aumentar a intimidade e a proximidade com o outro, uma vez que a distância já existe - uma clivagem estrutural entre o Eu e o Tu - , e o foco é desenvolver o Nós do relacionamento. O que se vive nesta fase inicial passa por uma autêntica euforia, e o desejo sexual pelo outro é intenso e surge de forma espontânea, em qualquer altura e em qualquer lugar. Com o passar do tempo, sentimos segurança, conforto, tranquilidade e proximidade com o outro - o conhecido amor - e cria-se uma ponte entre o Eu e os nossos parceiros. Contudo, ironicamente, é neste mesmo espaço entre o Eu e o Tu que surge o desejo erótico ou sexual. Assim, ao diminuir a distância entre os elementos dos casal, é natural que o desejo sexual espontâneo se transforme num desejo sexual responsivo, o que significa que aparece como resposta a um estímulo sexual, como beijos, carícias, filmes ou outras atividades de conotação erótica - um desejo criado pela premeditação e antecipação sexual. Para recuperar o erotismo é necessário recriar a distância que foi eliminada com tanto esforço e dedicação.


Criar distância no conforto da proximidade é a chave para manter aceso o desejo num relacionamento pautado por amor. É natural procurar incessantemente a intimidade e conforto no outro para nos protegermos da solidão e do medo de se “ficar sozinho”, mas potenciar a dose certa de distância para potenciar o erotismo significa fazermos o movimento oposto - afastarmo-nos um pouco do conforto do nosso parceiro e sentirmo-nos mais sós. É a nossa capacidade de tolerar esta distância, e as inseguranças que são geradas por esta, que nos permite manter aceso o outro pilar de uma relação, o interesse sexual. Na verdade, este movimento, por vezes assustador, deverá ter um foco na ligação a si mesmo e não na distância do parceiro. Num relacionamento é inevitável que se partilhe muitas partes essenciais das nossas vidas, contudo a intimidade pessoal representa uma zona privada, que requer tolerância, autocompaixão e respeito. Trata-se de um espaço, que pode ser físico, emocional e intelectual, que pertence apenas ao próprio. Nem tudo precisa de ser partilhado, todos devemos cultivar o nosso próprio “jardim secreto”.


A capacidade para construir este “jardim secreto” é potenciada na perceção do amor e do desejo como uma composição sinfónica de polaridades e não como uma oposição dissonante e sem sentido (ou remédio). Se por um lado o amor gosta de saber tudo, o desejo precisa de mistério; o amor gosta de diminuir a distância que existe entre o Eu e o Tu, o desejo é potenciado por esta; se a intimidade cresce através da continuidade e familiaridade, o erotismo é deteriorado pela rotina e repetição; o amor é sobre ter e o desejo é sobre querer. Juntos, intimidade e erotismo, ou amor e desejo, reforçam-se mutuamente para criar um relacionamento dinâmico, saudável e em constante evolução.

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