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VIH/SIDA e saúde mental



No dia 1 de dezembro celebrou-se o Dia Mundial de Luta contra a SIDA.


VIH/SIDA

O vírus da imunodeficiência humana (VIH) é um retrovírus que produz uma deficiência imunológica celular, sendo caracterizada pelo decréscimo do número de linfócitos no corpo humano. Por sua vez, a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) consiste no período final de evolução clínica do VIH.


A infeção por VIH é prevalente em todas as regiões do globo, verificando-se, no entanto, uma prevalência mais elevada na região africana, onde cerca de 25.6 milhões de pessoas vivem com VIH. Especificamente, em Portugal, de acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), foram identificados 61 433 casos de infeção por VIH (com diagnóstico realizado entre 1983 e 2019), dos quais 22 835 evoluíram para SIDA. Ainda que o número de infetados tenha vindo a diminuir ao longo dos últimos anos, Portugal destaca-se pelas elevadas taxas de novos casos de infeção por VIH e SIDA entre os países da Europa ocidental (DGS, 2020), sendo por isso de extrema relevância abordar este tema.


Sintomatologia

O período inicial de infeção por VIH é caracterizado pela presença de diversos sintomas, muitas vezes inespecíficos, que dificultam, por isso, o diagnóstico. Muitas vezes, o indivíduo apresenta sintomas semelhantes aos de um quadro gripal ou de uma virose comum. Depois deste período inicial, segue-se um longo período de evolução clínica. Esta evolução é, habitualmente, silenciosa, podendo ter uma duração até dez anos, durante a qual se dá uma degradação do sistema imunitário, na grande maioria dos casos, sem manifestação de sintomas. Durante este período, o paciente é referido como sendo portador do vírus ou seropositivo.

O período final desta evolução clínica designa-se SIDA, e é definido por um número muito reduzido de linfócitos no corpo humano. Nesta fase, as defesas do organismo entram em colapso e surgem complicações, tais como infeções por microrganismos comuns que adquirem maior gravidade, infeções oportunistas, como a pneumonia, neoplasias, entre outras condições de saúde.


Transmissão

A transmissão do VIH pode acontecer de três formas distintas: 1) por via sexual, ou seja, através de relações sexuais com um indivíduo VIH-positivo, sem a utilização de preservativo; 2) por via parentérica, por exemplo, através da partilha de seringas ou através de instrumentos que não tenham sido esterilizados como, por exemplo, instrumentos utilizados para piercings e tatuagens; 3) por via vertical, da mãe para o bebé, com maior risco no momento do parto e durante a amamentação.

Claro que existem determinadas condições e comportamentos que colocam os indivíduos num risco mais elevado de transmissão do vírus. Por exemplo, ter relações sexuais com um indivíduo VIH-positivo, ou com um estado serológico desconhecido; ter um elevado número de parceiros(as) sexuais; partilhar agulhas, seringas ou outros injetáveis contaminados; ou experienciar uma picada acidental de uma fonte com estado serológico positivo, por exemplo, entre profissionais de saúde.


Tratamento

Não existe cura para o VIH/SIDA. Trata-se de um vírus com uma enorme capacidade de multiplicação e que sofre inúmeras mutações que dificultam o tratamento, tornando-se resistente aos medicamentos administrados. No entanto, a terapêutica antirretroviral (TARV) parece ser eficaz na diminuição gradual da mortalidade e da incidência das infeções oportunistas, sendo disponibilizada de forma gratuita a todos os doentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS), em Portugal.

De forma a diminuir a propagação do vírus, a prevenção continua a ser a estratégia mais eficaz. A ideia passa por reduzir as condições e comportamentos que aumentam o risco de transmissão do vírus. Portanto, é importante reduzir comportamentos sexuais de risco, promover a adoção de comportamentos sexuais seguros (e.g., utilização do preservativo, masculino e feminino), e testar a população, no que respeita ao VIH e outras DST.


Erradicar o VIH/SIDA até 2030

De um modo geral, na última década verificou-se uma diminuição de novas infeções e mortes relacionadas com o VIH/SIDA. A diminuição destes números está relacionada com o investimento feito pela OMS e respetivos parceiros, que se focaram na organização de campanhas de sensibilização e apoiaram a expansão de novas tecnologias de prevenção e tratamento do VIH, forneceram orientações sobre prevenção, testagem e tratamento do VIH, aumentaram o acesso a medicamentos, a meios de diagnóstico e as tecnologias da saúde acessíveis, e apoiaram os planos nacionais de recuperação para o tratamento do VIH na África Ocidental e Central.


Ainda assim, os progressos são lentos, e persistem desigualdades nos serviços de prevenção, testagem e tratamento do VIH. De acordo com o secretário-geral nas Nações Unidas, António Guterres, o mundo prometeu erradicar o VIH/SIDA até 2030. No entanto, acredita que estamos desviados do caminho, pois para erradicar este problema é necessário que não existam desigualdades, que ainda persistem.

É, por isso, essencial que sejam desenvolvidas leis, políticas e práticas para combater o estigma e a exclusão enfrentados pelas pessoas que vivem com VIH, é necessário investir nos serviços de saúde para tratamento, testagem e prevenção do vírus, o que significa que é essencial haver mais recursos financeiros. Recentemente, e de acordo com a OMS, desde o início da pandemia de COVID-19 e outras crises mundiais, os progressos para a erradicação do VIH oscilaram, os recursos diminuíram e milhões de vidas estão em risco.


Psicologia e VIH/SIDA

Para além do claro impacto do VIH/SIDA na saúde física dos doentes, existe também um impacto negativo na sua saúde mental. Revisões sistemáticas da literatura sugerem que pessoas com VIH/SIDA têm uma maior probabilidade de experienciar sintomas depressivos e ansiosos, deparando-se com um desafio constante de adaptação a uma doença crónica. Estes desafios e sintomas poderão conduzir a uma menor motivação para procurar cuidados de saúde e prejudicar a adesão ao tratamento, tendo ainda um impacto na qualidade de vida do doente. Além disso, alguns estudos apontam para a probabilidade de desenvolvimento de perturbações neuropsiquiátricas em doentes com VIH/SIDA, tais como demência e distúrbios motores que impactam igualmente a sua qualidade de vida.

Assim, os psicólogos assumem um papel fundamental na prevenção e intervenção no VIH/SIDA. Por um lado, poderão exercer um papel importante na prevenção, nomeadamente através do desenvolvimento de campanhas de sensibilização junto da população geral, por exemplo, em comportamentos de risco de infeção por VIH, práticas de sexo seguro, dificuldades emocionais e relação de casal e família. Além disso, poderão proceder à avaliação e acompanhamento psicológico dos doentes, a nível individual, de casal ou família, devendo para tal ter formação adequada focada nesta população e problemática.


Se recebeu um diagnóstico de VIH/SIDA, procure ajuda de um profissional para lidar com os desafios e dificuldades que possam aparecer ao longo do caminho. Não precisa de o fazer sozinho. Cuide de si e da sua saúde.