A construção do ideal materno


No Ocidente, antes do século XVIII, a maternidade era vista de maneira muito diferente do que é hoje. Naquela época, no momento em que as crianças ganhavam independência relativamente aos cuidados básicos, geralmente aos 7 anos, ingressavam na vida adulta: trabalhavam, vestiam-se, e eram tratados como adultos. Com a ausência do conceito de infância que temos hoje, a maternidade limitava-se à gestação e ao auxílio dos cuidados básicos nos primeiros anos de vida. Para as classes mais altas da sociedade, nem a amamentação fazia parte desse pacote – era visto como algo selvagem.


Com a vinda do Iluminismo, surge o conceito de maternidade como uma característica feminina universal, descrevendo-o como um sentimento instintivo e puramente biológico. O amor passa a ser a base das relações entre pais e filhos. No final do século XVIII, começa a construção do ideal materno com a exaltação do instinto e do amor da mãe. A visão selvagem com que a amamentação era vista é quebrada e dá lugar a uma nova compreensão que é caracterizada pela submissão da mulher para o bem de seu filho. A mãe começa a ser comparada com algo puro, apenas com sentimentos nobres de cuidado e castidade. Esta comparação à pureza levou a comparações entre a boa mãe e a santidade, caracterizadas pelo sacrifício e exclusão. O discurso da igreja deixava claro que a amamentação e a maternidade eram deveres e, portanto, um pecado se não cumpridos.


Nos séculos XIX e XX, quando as condições económicas e políticas forçam o homem a sair de casa, a responsabilidade do lar e dos filhos é entregue à figura materna que acaba assumindo também o papel de educadora e assim, uma função social. Aos poucos, o mito do instinto materno passa a dominar a mulher desde a infância. Resultado disso é a imagem materna que existe na nossa sociedade ainda hoje. A ideia de que a maternidade é uma fase muito gratificante e o momento mais feliz das nossas vidas. Que tudo se encaixará “naturalmente”: que o desejo e o amor incondicional pelo filho estará presente desde o início; que a amamentação será fácil; que os chamados “instintos maternos” magicamente surgirão assim que o bebé nascer e que tornarão as mães capazes de lidar com tantas tarefas apesar do cansaço. A perpetuação desta imagem é tão saliente que até a ciência negligenciou o estudo da saúde mental da mulher quando se torna mãe. Sabemos de cada detalhe da fase do desenvolvimento do feto, mas muito pouco sobre a transição para a maternidade, o que os antropólogos chamam de “matrescência”.


Segundo o psiquiatra Daniel Stern, dar à luz uma nova identidade pode ser tão exigente quanto dar luz a um bebé. O puerpério é um período delicado, onde a mulher encara uma fragilidade física, psíquica e social enquanto o corpo se recupera do parto e das mudanças hormonais, afetando negativamente o humor. Ao mesmo tempo, existe uma reorganização das condições materiais e objetivas para garantir os cuidados da criança. A falta de suporte social do pai, da família ou do trabalho podem dificultar este processo ainda mais. O choque de realidade pode levar as mães a sentir culpa e vergonha por não se sentirem felizes, como se fosse um sinal de fracasso daquele que é o ideal materno. Pensamentos como “o que é que eu fiz da minha vida?” são ignorados e nunca revelados, pois seria um sinal de derrota.


Da dificuldade de lidar com todos estes fatores, a mãe pode desenvolver baby blues: sintomas leves e mais curtos de depressão. Este quadro atinge 70% das mulheres no pós-parto. Quando estes sintomas (sensação constante de vazio e melancolia, perda de motivação e prazer) se tornam mais sérios e prolongados, pode provocar o desenvolvimento de depressão pós-parto, que atinge uma em cada cinco mulheres. Neste quadro clínico, pode haver também desinteresse pela criança ou sensação de incapacidade.


Neste sentido, é importante que a sociedade crie mais abertura para discutir a maternidade de um modo realista, sem as construção sociais que nos foram impostas. É necessário normalizar as imensas e variadas dificuldades desta fase para que as futuras mães não sintam culpa e vergonha que as mães têm sentido até então. Assim, a sociedade pode servir como um fator de suporte para as mães e não como um fator de risco, cobrança, imposição e julgamento.



Referência e inspiração:

TOURINHO, J. G. A mãe perfeita: idealização e realidade - Algumas reflexões sobre a maternidade. IGT na Rede, v.3, n. 5, 2006.

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