Desconstruir a infertilidade: Causas, tratamento e impacto na saúde mental


Nas últimas décadas, o tema da saúde mental da mulher, particularmente no que diz respeito à sua vida reprodutiva, tem suscitado um interesse substancial. Tem havido um crescente reconhecimento e preocupação relativamente ao facto das mulheres serem vulneráveis a mudanças significativas no seu humor, principalmente em períodos como os da gravidez e do pós-parto. Mas… e quando a gravidez não acontece?


Em maio, pareceu-nos pertinente abordar o tema da infertilidade, contrariando os inúmeros significados positivos deste mês, associados à experiência e festejo da maternidade – por exemplo, de acordo com a mitologia, maio (em latim, Maius) foi nomeado em homenagem à deusa Maya (que significa “pequena mãe”), a deusa da fertilidade, da primavera e do renascimento; na religião católica, maio é dedicado especialmente à Virgem Maria. Mas estará a sociedade demasiado focada neste papel da mulher como mãe, ignorando, muitas vezes, as condições adversas que poderão ocorrer durante a sua vida reprodutiva?


Para que ocorra uma gravidez são necessários diversos passos, desde a formação e libertação de um óvulo pelos ovários até o desenvolvimento de vida intrauterino. Contudo, nem sempre este processo decorre como esperado, podendo abrir caminho a um diagnóstico de infertilidade.


O que é a infertilidade?

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) um problema de saúde pública, com inúmeras implicações psicossociais, demográficas e económicas, a infertilidade pode ser definida como a “incapacidade de um casal conceber ou levar a bom termo uma gravidez, depois de pelo menos um ano de relacionamento sexual regular sem qualquer proteção” (Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução [SPMR]). Cerca de 1 em cada 10 casais tem dificuldade em engravidar ou levar uma gravidez até ao fim. A boa notícia é a de que nos últimos anos avanços notáveis foram alcançados nos tratamentos para a infertilidade.


Quais as principais causas para a infertilidade?

Em cerca de 30 a 40% dos casos de infertilidade, a causa é feminina, seguindo-se 20 a 30% dos casos, cuja causa é masculina. Aproximadamente, em 30% dos casos, ambos os membros do casal contribuem, em maior ou menor grau para o diagnóstico. Contudo, em cerca de 5% a 10% dos casos não se deteta qualquer razão aparente para a infertilidade - denominada infertilidade inexplicada ou de causa desconhecida.

Causas femininas mais comuns

  • Falência da ovulação

  • Obstrução das trompas

  • Doença do útero

  • Muco cervical desfavorável

  • Endometriose

  • Aborto de repetição

Causas masculinas mais comuns

  • Diminuição do número de espermatozoides

  • Espermatozoides com mobilidade reduzida

  • Espermatozoides com configuração anormal

  • Ausência de espermatozoides

Embora muitas das causas para um diagnóstico de infertilidade não possam ser controladas, realçamos alguns hábitos que poderão contribuir para a diminuição da probabilidade deste diagnóstico:

  • Higiene do sono: O repouso noturno é essencial para o bom funcionamento da hipófise (glândula pituitária), responsável pela produção de hormonas determinantes para a estimulação dos ovários, nas mulheres, e dos testículos, nos homens. Assim, é aconselhável que seja feita uma boa higiene do sono (7/8h de sono por noite).

  • Alimentação: É aconselhada uma alimentação saudável, equilibrada e variada.

  • Exercício físico: É aconselhada a prática de exercício físico, de forma equilibrada. Tanto a prática excessiva de exercício físico, como o sedentarismo, perturbam o funcionamento da hipófise, interferindo com o funcionamento dos ovários e dos testículos.

  • Tabagismo: De acordo com diversos ginecologistas, nas mulheres, fumar chega a envelhecer rapidamente os óvulos, em cerca de dez anos; nos homens, os efeitos nocivos do tabaco são essencialmente refletidos na perda de mobilidade e a fragmentação do DNA espermático, o que reduz a capacidade de fecundação.

  • Peso corporal: O excesso de peso ou baixo peso conduzem a alterações hormonais com impacto negativo na fertilidade da mulher e do homem. Nas mulheres, os desvios de peso interferem com a quantidade de estrogénio produzida e o seu desequilíbrio impede a ovulação. O excesso de estrogénios nas mulheres obesas é tão prejudicial como a escassez desta hormona feminina nas mulheres muito magras ou desportistas (i.e., com muito pouca massa gorda). Nos homens, a elevada percentagem de tecido adiposo provoca uma diminuição na produção de testosterona, o que pode causar perda da libido e dificuldade de ereção. Quanto maior for o excesso de peso, menor é a qualidade do esperma.

  • Temperatura na zona testicular: Temperaturas muito elevadas na zona testicular prejudicam a produção do esperma, afetando ainda a quantidade e motilidade dos espermatozoides. Os homens devem, por isso, evitar tomar banho com água muito quente, trabalhar com o computador diretamente pousado no colo, e usar roupa interior demasiado apertada.


Quais as opções de tratamento para a infertilidade?

Atualmente existem diversas possibilidades de tratamento para a infertilidade, que deverão ser cuidadosamente avaliadas de acordo com cada caso clínico. Por exemplo, o uso de hormonas para a estimulação dos ovários, o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas sofisticadas, tais como Tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA), o aparecimento da FIV, e, mais recentemente, da microinjeção intracitoplasmática de espermatozoides e a possibilidade de rastreio dos embriões em certas condições. Para consultar informação mais detalhada sobre os diversos tratamentos para a infertilidade, consultar: https://www.spmr.pt/


Qual o impacto da infertilidade na saúde mental?

A infertilidade é habitualmente experienciada como um evento traumático para a maioria dos indivíduos e casais, principalmente se um dos seus objetivos de vida estiver centrado no exercício da parentalidade. Além disso, embora varie em função do contexto cultural em que o indivíduo se insere, a habitual pressão social e parental para se ser mãe ou pai e dar continuidade ao nome de família na geração seguinte, coloca uma grande pressão no indivíduo gerando, muitas vezes, elevado desconforto perante esta temática. Segundo alguma literatura científica, a vivência psicológica da infertilidade pode mesmo ser comparada a um processo de luto, inerente à perda de uma fertilidade esperada, sem dificuldades associadas. Assim, receber um diagnóstico de infertilidade parece ter um impacto negativo na saúde mental do indivíduo, quer a nível individual como conjugal, conduzindo, muitas vezes, à experiência de tristeza, ansiedade, sensação de perda (perda do filho idealizado por gravidez espontânea) e sentimentos de culpa.


Neste contexto, as intervenções psicológicas podem ser essenciais! A psicoterapia compreende o acompanhamento psicológico necessário para ajudar a lidar com respostas emocionais causadas pelo diagnóstico de infertilidade e possível tratamento, assim como com as consequências psicossociais decorrentes dessa experiência e as necessidades psicológicas dos indivíduos envolvidos (e.g., casais, mulheres ou homens inférteis, dadores de gâmetas). O psicólogo desempenha um papel importante, quer no aconselhamento em saúde sexual e reprodutiva (e.g., promoção de tomada de decisões reprodutivas informadas), como no acompanhamento psicológico e promoção do bem-estar em todas as fases e aspetos do processo reprodutivo (e.g., tratamento de reprodução assistida, se for esse o caso; gestão de expectativas).


Viver com um diagnóstico de infertilidade exige coragem e dedicação para se enfrentar o sofrimento, físico e psicológico, causado por esta condição.


Se recebeu um diagnóstico de infertilidade, procure ajuda especializada. Cuide de si.




Referências bibliográficas

Barnes, D. (2014). Women's reproductive mental health across the lifespan. Springer.

Lopes, V. & Pinto, G. (2012). Quando a gravidez não acontece: intervenção psicológica na infertilidade. In M. J. Correia (Coord.), A psicologia na saúde da mulher e da criança: intervenções, práticas e contextos numa maternidade (pp. 36-47). Placebo.

Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução: https://www.spmr.pt/

van den Akker, O. B. (2012). Reproductive health psychology. John Wiley & Sons.

World Health Organization (2009). Mental health aspects of women's reproductive health: A global review of the literature. United Nations Population Fund, & Key Centre for Women's Health in Society.

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