Trauma geracional: O trauma que passa de geração em geração

Atualizado: 30 de mar.


Muitas coisas são transmitidas pela família, como a herança, condições genéticas e características físicas. Em alguns casos, o TRAUMA também pode ser herdado.

Trauma transgeracional é definido como um trauma que não é apenas experimentado por uma pessoa, mas que se estende de uma geração para a próxima.


Um artigo do jornal britânico The Guardian (2019) explora o conceito de forma muito clara no contexto da guerra do Líbano em 2006. Um psiquiatra libanês que acompanha pessoas que lutaram e sobreviveram a um contexto de guerra, partilha como muitas delas vivem dominadas pela raiva e outras emoções “negativas”, acabando por originar repressão, isolamento, e/ou comportamentos impulsivos ou agressivos.


E todos estes sentimentos, como o ressentimento e a raiva, e os comportamentos para lidar com estes estão a ser vistos, sentidos e aprendidos pelos filhos destas pessoas que vivenciaram eventos traumáticos.


Outros estudos têm acompanhado os filhos e netos dos sobreviventes do Holocausto, filhos de prisioneiros da guerra civil americana, assim como estudos que tentam perceber os impactos mais indiretos de traumas históricos de larga escala, como a expulsão dos nativo-americanos das suas terras ou a escravatura em África. Os resultados não são conclusivos - uns indicam uma maior probabilidade de stress na infância, outros uma maior resiliência.


Se o trauma está a ser passado de uma geração para a próxima, qual é o mecanismo de transmissão?


A ideia da epigenética defende que o trauma poderá causar mudanças genéticas que são então depois transmitidas à descendência, contudo não existem provas suficientes para a confirmar.


O principal mecanismo parece ser simplesmente o estilo de parentalidade do pai/mãe traumatizado.


Como bebé, é muito importante ter um cuidador por perto que ajude a espelhar as emoções e a satisfazer necessidades básicas. Por exemplo, um cuidador que sorria quando o bebé sorri permite que este internalize estas respostas e inicie o seu processo de desenvolvimento. Os problemas podem surgir quando o cuidador está incapaz de desempenhar esse papel, seja, por exemplo, devido a um trauma:


“Quando alguém foi muito negligenciado, ficou ali uma lacuna, um vazio, um nada. E quando você é maltratado, você fica com essa experiência de maltrato e leva-a para a vida”

Investigações com ratos indicam que quando as mães estão stressadas durante a gravidez ou não conseguem cuidar devidamente das suas crias, estas tendem também a ser mais stressadas, o que pode afetar a aprendizagem e a memória.


Todos somos suscetíveis a traumas geracionais, mas existem populações específicas que são mais vulneráveis devido às suas histórias. “Ser explorado sistematicamente, sofrer abusos repetidos e contínuos, racismo e pobreza são traumáticos”. Violência doméstica, abuso sexual, crimes de ódio também se incluem nos traumas que causam maior suscetibilidade.


Dr. DeSilva, psiquiatra, afirma: “Os afro-americanos nos Estados Unidos e em todo o mundo são particularmente vulneráveis. E as famílias afetadas por catástrofes como o tsunami de 2004 na Ásia terão reatividade traumática para as próximas gerações."


Com a recente guerra na Ucrânia, podemos esperar que muitas gerações sejam afetadas direta e indiretamente por este trauma. Precisaremos do entendimento que os filhos, netos, talvez ainda bisnetos, das pessoas agora diretamente afetadas pela guerra poderão vir a lidar com as consequências deste trauma.



Link do artigo no qual este foi inspirado:

https://www.theguardian.com/society/2019/oct/24/is-trauma-handed-down-through-generations-ptsd-conflict

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